Em sintonia com as Efemérides 2026, o Marista Conectado segue fazendo memória agradecida dos Irmãos que, se vivos estivessem, completariam 100 anos de nascimento em 2026. Neste mês, recordamos a vida do Ir. Pedro Paulo (Manuel Inocêncio dos Santos), religioso marista cuja trajetória foi marcada pela simplicidade, pelo trabalho dedicado e por uma profunda sensibilidade para com os mais pobres.
Nascido em 4 de fevereiro de 1926, em Marechal Deodoro (AL), filho de José Inocêncio dos Santos e Maria Rosa da Conceição, Manuel Inocêncio ingressou na vida marista em um momento pouco comum para a época. Aos 27 anos de idade, entrou no Juvenato de Apipucos, no dia 7 de setembro de 1953. Seguiu sua formação religiosa com o ingresso no Noviciado de Lagoa Seca (PB), em 2 de fevereiro de 1956, e professou seus Votos Perpétuos em 8 de dezembro de 1960.
Nos registros históricos da congregação, o Ir. Pedro Paulo aparece exercendo funções que revelam a vocação para o serviço concreto. Foi identificado como “clerc maître – fourneau”, responsável pela padaria, e, posteriormente, como “dépensier”, função ligada à administração das provisões da comunidade. Pertencia ao grupo dos chamados “Irmãos do trabalho”, religiosos que, embora não atuassem diretamente nas escolas, desempenhavam funções essenciais para a vida das comunidades e para a missão marista.
Sua história, contudo, ultrapassa em muito os ofícios que exerceu. Inicialmente responsável pela padaria da casa de Apipucos, abastecia diariamente uma comunidade que reunia cerca de 200 pessoas entre juvenistas, escolásticos, Irmãos da comunidade provincial e religiosos idosos. Quando a padaria foi encerrada por decisão administrativa do ecônomo provincial Ir. Cirilo (Manuel Antunes dos Santos), o Ir. Pedro Paulo soube transformar uma aparente adversidade em uma nova forma de missão.
Percebendo a realidade de pobreza das famílias que viviam nas proximidades da colina de Apipucos, passou a recolher alimentos excedentes dos diversos refeitórios da Casa e, complementando-os com outros mantimentos obtidos junto às despensas, preparava diariamente um nutritivo sopão distribuído a aproximadamente 100 pessoas em situação de vulnerabilidade. Mais do que entregar alimento, acolhia, conversava, orientava e criava vínculos com aqueles que o procuravam.
O Ir. Eduardo d’Amorim recorda que foi nessa dedicação silenciosa aos mais necessitados que o Ir. Pedro Paulo encontrou sua verdadeira forma de santificação: “o Ir. Pedro Paulo conversava com todos, conhecia a todos pelo nome, orientava a cada um. Sempre de batina, humilde e simpático, era visto como o ‘Anjo de Apipucos’”. Segundo o mesmo testemunho, a multidão de pessoas que diariamente subia a ladeira das Palmeiras Imperiais em busca de alimento encontrava também acolhida, escuta e dignidade. A imagem daquele Irmão simples, sempre sorridente e disponível, tornou-se uma referência para a comunidade local e para toda a Província.
O Ir. Eduardo descreve, ainda, a personalidade que marcou todos aqueles que conviveram com ele: “era amável, de bom trato, sempre sorridente”. Sua fama não se consolidou como padeiro nem como administrador de provisões, mas como um religioso inteiramente dedicado aos pobres. Por esse motivo, ficou amplamente conhecido na Província pelo trabalho social desenvolvido em Apipucos, tornando-se uma presença inspiradora para gerações de maristas.
O reconhecimento de sua dedicação ultrapassou sua própria vida. Anos mais tarde, quando funcionava em Apipucos a Faculdade Marista, o então reitor, Ir. Ailton Arruda, criou uma Comenda Universitária com nome de Ir. Pedro Paulo, homenageando aquele religioso cuja simplicidade e compromisso com os mais vulneráveis haviam deixado marcas profundas na memória marista.
O Ir. Pedro Paulo faleceu precocemente em 9 de fevereiro de 1972, poucos dias após completar 46 anos de idade, possivelmente em decorrência de complicações relacionadas ao diabetes. Sua passagem foi breve, mas seu legado permanece vivo no testemunho daqueles que o conheceram e na inspiração de uma vida inteiramente colocada a serviço do próximo.
Ao celebrarmos o centenário de seu nascimento, somos convidados a nos recordar de que a missão marista não se realiza apenas em salas de aula, mas também nos gestos silenciosos de solidariedade, cuidado e acolhimento. A vida do Ir. Pedro Paulo continua a nos lembrar que o Evangelho ganha rosto concreto quando se traduz em serviço aos que mais necessitam.



