65 anos depois: a expulsão dos Irmãos Maristas de Cuba

Colegio Champagnat Maristas

Em 1961, a presença marista em Cuba sofreu uma ruptura definitiva. Após quase seis décadas de atuação educacional no país, os Irmãos maristas deixaram a ilha em meio ao processo de nacionalização das escolas promovido pelo governo revolucionário. Encerrava-se, assim, uma trajetória iniciada em 1903, quando os primeiros religiosos chegaram a Cienfuegos e deram início a uma rede educativa que, ao final dos anos 1950, reunia 10 colégios e a Villa Marista, sede da Província Cuba-América Central desde 1949.

 

O desfecho não foi abrupto, mas resultado de um processo acelerado de transformações políticas, sociais e religiosas desencadeado pela Revolução Cubana de 1959. Já em outubro de 1960, diante do novo cenário, os jovens em formação haviam sido enviados para fora do país. Em junho de 1961, restavam apenas três Irmãos na Villa Marista, também expulsos poucos meses depois, em setembro. As instituições privadas foram intervindas, e a congregação se dispersou, sobretudo pela América Latina, além de Espanha e Estados Unidos.

 

Relembrar esse episódio é fundamental para compreender não apenas a trajetória marista, mas também as dinâmicas da história recente de Cuba. A revolução alterou profundamente as relações entre Estado, sociedade e Igreja. Se, inicialmente, o discurso oficial associava a transformação nacional à ampliação do acesso à educação e à reorganização das estruturas institucionais, na prática consolidou-se um ambiente de crescente restrição às expressões religiosas. Congregações católicas, incluindo os Maristas, perderam espaços, visibilidade e, em muitos casos, foram forçadas ao exílio.

 

No caso específico dos Irmãos maristas, o impacto não foi apenas institucional, mas também cultural e educacional. Antes da nacionalização, a congregação mantinha presença ativa em cidades como Cienfuegos, Caibarién, Havana, Ciego de Ávila, Camagüey, Cárdenas, Matanzas, Holguín e Santa Clara. O colégio da Víbora, na capital, era então o maior, com cerca de 1.700 estudantes, enquanto a unidade de Santa Clara reunia 550 alunos. A saída dos religiosos interrompeu uma rede de ensino consolidada e influente em várias regiões da ilha.

 

Inserida no contexto da Guerra Fria, Cuba tornou-se um dos principais símbolos da polarização ideológica no continente americano. O alinhamento com a União Soviética e a adoção de um modelo estatal socialista redefiniram profundamente a economia, a política e a vida civil. O embargo econômico dos Estados Unidos, iniciado naquele período e ampliado ao longo das décadas, permanece como um dos fatores estruturais da realidade cubana, ainda que não seja o único a explicar as dificuldades enfrentadas pelo país.

 

Essas tensões históricas ajudam a iluminar o cenário atual. Em 2026, Cuba voltou a adotar medidas de racionamento de combustível para preservar serviços essenciais, com impacto direto em áreas como transporte, educação e abastecimento. No mesmo ano, um colapso da rede elétrica deixou milhões de pessoas sem energia, evidenciando a combinação de escassez de recursos, infraestrutura envelhecida e pressões externas persistentes. Protestos registrados em Havana, em meio a apagões prolongados, também revelam o grau de instabilidade vivido pela população.

 

É nesse contexto que a memória da expulsão de 1961 ganha nova densidade histórica. Mais do que um episódio de ruptura, ela expressa uma relação complexa entre carisma religioso, Igreja e sociedade em um território marcado por tensões recorrentes. A própria trajetória marista evidencia essa continuidade. Em 1993, o Conselho Geral da congregação decidiu pela retomada da missão em Cuba, ainda que a autorização oficial só tenha sido concedida oito anos depois. Os primeiros Irmãos retornaram em 2001. Duas décadas mais tarde, em 2021, celebraram os 20 anos dessa nova presença, sublinhando o compromisso com a Igreja local e com o povo cubano.

 

Sessenta e cinco anos após a expulsão, a história marista em Cuba permanece atravessada por duas dimensões inseparáveis: memória e resistência. Memória de uma obra educativa relevante, interrompida por um contexto de radicalização política. Resistência de um carisma que, mesmo após o exílio, encontrou caminhos para retornar, reinventar-se e permanecer junto ao povo. Em um país marcado por crises persistentes, essa permanência não é apenas simbólica: é um testemunho concreto de continuidade e esperança.

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