Encontro Provincial de Comunidades reafirma a fraternidade na Província Marista Brasil Centro-Norte (PMBCN)

LD

Há ocasiões que não objetivam resolver tudo, mas, sim, induzir ao deslocamento: para tirar do lugar comum, retornar às fontes e reacender o essencial. Foi nessa travessia espiritual e comunitária que Irmãos, formandos e leigas se reuniram em Belo Horizonte (MG) para o Encontro Provincial de Comunidades, vivido como um tempo de escuta, convivência fraterna e discernimento sobre a vida, a missão e a presença marista em um mundo marcado por profundas transformações e desafios.

 

Realizado entre os dias 17 e 21 de abril, na Casa de Retiros São José, o evento acolheu 87 participantes (69 Irmãos, 13 formandos e cinco leigas) em um momento compreendido como uma travessia espiritual e comunitária. Na mensagem de abertura, o superior provincial, Ir. José de Assis Elias de Brito, destacou que há situações em que Deus não oferece respostas imediatas. Em vez disso, provoca deslocamentos internos que conduzem ao essencial. Segundo o Irmão, o encontro não pedia respostas prontas; pedia presença inteira, que escuta e que se deixa tocar.

 

As reflexões do primeiro dia evidenciaram um chamado claro ao retorno às fontes do carisma, como um exercício de verdade e fidelidade criativa. As exposições e partilhas revelaram a complexidade do mundo contemporâneo, marcado por violência, exclusão e sofrimento, especialmente entre crianças e jovens, ao mesmo tempo em que apontaram a existência de uma esperança silenciosa, sustentada por gestos concretos de solidariedade e permanência na missão.

 

Nesse contexto, emergiu com força a convicção de que não há neutralidade possível diante da dor do mundo. A missão marista foi reafirmada como presença encarnada, comprometida com a vida e com os mais vulneráveis, exigindo posicionamentos claros e coerentes. A convivência fraterna entre Irmãos, formandos e leigas foi reconhecida como um dos sinais mais eloquentes da ação do Espírito, tornando visível uma comunhão que integra diferenças e se converte, por si mesma, em anúncio profético.

 

Também foi aprofundado o debate sobre a necessidade de integrar inspiração carismática e mediações concretas. As reflexões apontaram que a missão se fragiliza sem a estrutura adequada, assim como a estrutura se esvazia quando perde a referência da missão. O planejamento estratégico provincial foi apresentado não como instrumento meramente técnico, mas como mediação viva de fidelidade ao carisma, capaz de traduzir os apelos capitulares em práticas e decisões responsáveis.

 

Assim, o tema do uso evangélico dos bens ocupou lugar central. Avanços em governança, transparência e sustentabilidade foram reconhecidos, sem perder de vista que a eficiência, por si só, não é suficiente. O discernimento ético, a opção pelos mais pobres e a coerência entre vida, missão e recursos foram apontados como critérios indispensáveis para uma gestão verdadeiramente evangélica.

 

Também ganhou destaque a reflexão sobre a qualidade da vida comunitária, por meio da qual o carisma se torna visível, credível e fecundo. As partilhas evidenciaram que comunidades vivas só se sustentam com integrantes comprometidos, que ofereçam escuta, tenham corresponsabilidade e tornem possível o discernimento coletivo.

 

“Foi um tempo novo de novas vivências. Refletimos nossa convivência em Comunidade e tivemos, também, uma visão geral da Província nos aspectos financeiro, organizacional e vocacional. Toca-me muito a convivência com os mais novos e os mais velhos, o cuidado e o zelo com os Irmãos idosos. A convivência com estes me recorda o quanto contribuíram e contribuem para a minha vocação de leiga na Igreja. Os temas abordados me fizeram refletir o meu lugar no mundo, na Igreja e na vida marista. De coração agradecido, digo que foi uma experiência edificante para minha vida pessoal e comunitária como membro de uma comunidade mista”, explicou Marly Barbosa Fonseca, leiga da Comunidade Marista de Campina Grande (PB).

 

O dia dedicado às vocações e à vida comunitária foi reconhecido pelos participantes como um verdadeiro tempo de graça, no qual reflexão e experiência se entrelaçaram. As contribuições teóricas e práticas provocaram uma escuta atenta e um discernimento pessoal e coletivo que reconduziram ao núcleo da vocação marista: o amor partilhado, a fraternidade cuidada e a coerência entre o que se anuncia e o que se vive. Nas partilhas, emergiu com clareza a consciência de que a vida comunitária, quando não é bem cuidada, fragiliza também a espiritualidade, a missão e a dimensão pessoal, enquanto comunidades que cultivam o cuidado mútuo, o respeito às singularidades e a corresponsabilidade tornam-se terreno fértil para a fidelidade vocacional.

 

“Há tempos não vivíamos um momento com espírito tão profundo e dinâmico, que reflete a vitalidade da nossa Província. Estou muito feliz e recarregado com tudo que vi, ouvi e vivi neste encontro. Foi um clima muito agradável e fraterno de partilha, com bastante transparência e leveza nas exposições e colocações”, afirmou Ir. Danilo Ferreira Silva, da Comunidade Marista de Belo Horizonte (MG).

 

O encontro também não ignorou as tensões reais que atravessam a vida comunitária hoje, como o risco do egocentrismo, as polarizações silenciosas, o impacto do ritmo acelerado da pós-modernidade e das tecnologias digitais, bem como as fragilidades humanas profundas que pedem escuta solidária e acompanhamento responsável. Nesse sentido, como sinais de esperança, destacaram-se a convivência intergeracional e intercultural, a presença significativa de jovens formandos e leigos, e a convicção de que o testemunho de vida é a forma mais credível de gerar vocações. O chamado que ressoou foi exigente e concreto: superar a postura de espectadores, assumir-se como parte viva do corpo comunitário e tornar-se semeador ativo de comunhão, integrando missão e estrutura, palavra e prática, presença e participação, para que o carisma marista permaneça vivo e fecundo para as gerações futuras.

 

Ao longo do evento, consolidou-se a imagem do outono, que, embora marcado por quedas de folhas, revisões de estruturas e relativização de certezas, também apresenta fecundidade e preparação para o novo. A experiência vivida reforçou a compreensão de que a fragilidade pode tornar-se lugar teológico, espaço onde Deus continua a agir e a gerar vida nova.

 

Na mensagem de abertura, o superior provincial sintetizou esse contexto ao afirmar que não são os que possuem respostas prontas que transformam a história, mas “os que permanecem quando tudo pede desistência”. Permanecer, nesse sentido, revelou-se como atitude espiritual, comunitária e missionária, especialmente junto a crianças, adolescentes e jovens mais vulneráveis.

 

O Encontro Provincial de Comunidades encerrou-se sem oferecer fórmulas prontas. No entanto, trouxe um chamado claro à fidelidade criativa, à integração entre espiritualidade e gestão, e à coragem de permanecer na missão com ternura e esperança, convocando a Província a seguir semeando a Boa Notícia, que insiste em florescer, mesmo em tempos de travessia.

 

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