O prólogo do livro Nexus, de Yuval Noah Harari, afirma que, “nos últimos 100 mil anos, nós, sapiens, certamente acumulamos um poder enorme. A mera listagem de nossas descobertas, invenções e conquistas ocuparia muitos volumes. Mas poder não é sabedoria e, depois de 100 mil anos de descobertas, invenções e conquistas, a humanidade se arrasta para uma crise existencial”. Apesar desses avanços, alimentamos progressivamente um tempo de desconfiança generalizada, em que as instituições públicas, científicas e religiosas são colocadas em xeque diante da desinformação e da polarização social. A crise de legitimidade política, o ceticismo em relação à ciência e a erosão dos valores religiosos revelam um esgotamento progressivo dos vínculos coletivos tradicionais e uma degradação do pacto social que deveria sustentar a convivência harmônica da sociedade.
Nesse contexto, qual é o papel da escola, também ela atingida pela proliferação de teorias e dogmas que aparentemente não demonstram a propalada eficácia? A escola, como espaço de promoção, de formação e educação, tem papel fundamental na reconstrução da confiança abalada. É necessário mais do que transparência: impõem-se educação cívica, ensino de excelência, compromisso ético e espiritualidade comunitária, capazes de restaurar a cultura do diálogo e da corresponsabilidade.
As novas comunidades de fé e os movimentos eclesiais também podem agir como espaços de escuta e formação de consciência, ajudando a recompor a base moral, ética e relacional sobre a qual deve erguer-se qualquer sociedade justa. A escola, em particular, pode ser espaço de encontro e diálogo, onde os jovens sejam instigados a desenvolver habilidades críticas e éticas para lidar com a complexidade do mundo atual.
Para isso, é necessário que a escola seja um espaço-tempo de inclusão, diversidade e respeito, onde os alunos se sintam seguros e motivados a aprender e a crescer. Além disso, é fundamental que os professores e educadores sejam eles próprios capacitados para lidar com as questões complexas e sensíveis que surgem no contexto atual, que atingem frontalmente as juventudes hodiernas.
A reconstrução da confiança nas instituições e nos genuínos valores é um desafio que requer a colaboração de todos os setores no contexto da escola e da sociedade. A preservação desses valores na escola marista é perene exigência para a continuidade da obra nascida do coração de Marcelino Champagnat e sustentada pela proteção de Maria ao longo de dois séculos.
Ir. Claudino Falchetto