No Regional Norte da PMBCN, a animação vocacional se constrói no compasso dos rios e das estradas. Em um território marcado por distâncias, acessos desafiadores e pela força da cultura amazônica, o trabalho vocacional assume uma dinâmica própria: exige deslocamento constante, sensibilidade e escuta atenta à realidade dos jovens.
É nesse cenário que o agente vocacional Heider Costa, da Equipe de Animação Vocacional, realiza sua missão. Em seu relato, ele descreve uma experiência profundamente conectada ao território e aos caminhos percorridos: “Você aprende que a vocação tem o ritmo dos rios Tapajós, Gurupi, Arapiuns, Caeté ou Marapanim e a força das estradas em boas ou más condições. Às vezes, os rios correm forte e as rodovias nos dão segurança; em outras, quase param, mas nunca deixam de seguir um curso”.
Entre igarapés escuros, o verde intenso da mata e trajetos por terra e água, a missão vai se moldando à realidade de cada lugar. Chegar às comunidades significa transformar o próprio caminho em espaço de encontro: “o barco vira sala de espera e o trapiche, sala de aula”. À sombra das mangueiras, surgem rodas de conversa sobre sonhos, medos e inquietações, especialmente diante de um mundo que, tantas vezes, exige respostas rápidas demais.
“Cada encontro cheira a terra molhada e traz abraços fraternos”, partilha Heider, destacando que, no horizonte muitas vezes opaco das viagens, permanece uma certeza: a vocação não se apressa, ela germina e pede cuidado.
A presença itinerante entre escolas e paróquias revela outro elemento essencial do trabalho vocacional: a escuta. “A primeira ferramenta vocacional é a escuta”, afirma. Os jovens chegam trazendo consigo o pulsar de suas realidades, as angústias, os sonhos, a cultura que canta, o trabalho que sustenta a casa, a formação vivida em espaços como o Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA) de Carutapera, a fé em São Benedito e em Nossa Senhora de Nazaré, tão presentes em Bragança, e a ancestralidade dos povos indígenas nas comunidades do rio Arapiuns.
É a partir dessa realidade que o diálogo se constrói, transformando perguntas em travessias: “O que move você?”, “Que mundo você quer ajudar a construir?”, “Onde seus dons encontram a dor do outro?”. O intuito não é oferecer respostas prontas, mas mostrar que o caminho é traçado em conjunto, como quem compartilha bússolas em vez de mapas.
No cotidiano das visitas, a imaginação e a dinamicidade vão abrindo portas onde antes havia timidez. Oficinas e pequenas experiências de cuidado ajudam a despertar possibilidades, enquanto a própria natureza ensina, ora como espelho, ora como correnteza. Nesse contexto, a vocação se revela como um processo comunitário, que nasce do encontro, amadurece na perseverança e se fortalece no pertencimento.
Ao final de cada viagem, seja no balanço de uma rede, no estofado de um carro, no assento de uma moto ou no remar das canoas, permanece o exercício de revisitar os registros: cadernos, anotações, fotos. Neles estão nomes, desejos e promessas que dão sentido à caminhada.
Por meio dessas experiências, Heider percebe que sua missão “é remar entre margens, recolher perguntas e devolver esperança em forma de caminho”. Em meio às estradas, matas e águas da Amazônia, a presença marista segue se renovando, simples como um abraço e profunda como um rio que nunca deixa de seguir.
Inspirado pelo carisma de São Marcelino Champagnat e pela confiança em Nossa Senhora, o agente vocacional reconhece a própria identidade nessa travessia: alguém que rema, aprende com os rios e estradas, e segue, com coragem, acompanhando os passos e os sonhos dos jovens.