Em 14 de maio, data simbólica para a presença marista na Nova Zelândia — o martírio do Ir. Euloge Chabany em 1864 e a fundação da primeira escola em Wellington, em 1876 —, a Província Star of the Sea, que hoje abrange toda a Oceania, revive a memória de uma missão marcada por coragem, evangelização e educação.
A história remonta a 1836, quando a Santa Sé confiou aos maristas o Vicariato do Oceano Pacífico Ocidental. Atendendo ao apelo missionário da Igreja, Marcelino Champagnat, fundador do Instituto Marista, não hesitou: designou religiosos para integrarem expedições rumo a terras distantes. Assim, no início de 1838, o Ir. Michel Colombon — considerado o primeiro irmão marista no Pacífico — chegou à Nova Zelândia, acompanhando o bispo Jean-Baptiste Pompallier. Começava ali a presença marista na Oceania, especialmente em solo neozelandês, onde os missionários passaram a aprender a língua local e semear os fundamentos da fé católica.
Nos anos seguintes, dezenas de irmãos e padres maristas desembarcaram em diferentes ilhas, iniciando uma missão de longo alcance com foco na evangelização e na educação das populações locais. Entre os primeiros enviados, destacaram-se Claude-Marie Bertrand — primo em segundo grau de Champagnat — e Euloge Chabany.
Foi justamente este último quem selou a sua missão com o martírio. Em 14 de maio de 1864, durante a batalha de Moutoa, nas Guerras Neozelandesas, o Ir. Euloge foi morto enquanto prestava socorro a combatentes feridos. Seu gesto altruísta em meio ao conflito rendeu-lhe um lugar especial na memória marista. O memorial erguido em 1865, o primeiro monumento de guerra da Nova Zelândia, homenageia os 15 Māori que tombaram defendendo a comunidade e, singularmente, inclui o nome do Ir. Euloge — único europeu ali mencionado — como símbolo de entrega total aos valores evangélicos e à missão marista.
Doze anos depois, também em 14 de maio, os irmãos inauguraram a primeira escola marista da Nova Zelândia, situada na Boulcott Street, em Wellington. Era o início institucional do apostolado educacional marista no país. Nos anos seguintes, outras cidades, como Auckland, Hamilton, Napier, Whanganui e Christchurch, receberam escolas maristas, consolidando uma rede de ensino católico que respondia à demanda crescente por formação cristã da juventude. O carisma pedagógico de Champagnat, focado nos mais vulneráveis, rapidamente se enraizou na realidade local.
Impulsionados pelo êxito na Nova Zelândia, os irmãos logo expandiram sua atuação às ilhas vizinhas. Tonga (1842), Fiji (1844), Samoa (1845), Nova Caledônia (1843) e outras regiões receberam missionários e, posteriormente, escolas, internatos e centros de formação inspirados em L’Hermitage, casa-mãe dos maristas na França. A partir do final do século XIX, as escolas maristas já operavam em várias ilhas da Polinésia e Melanésia, sempre adaptando-se às línguas e culturas locais, mesmo enfrentando obstáculos como a colonização ou divisões políticas (como em Samoa ou Fiji).
Com o crescimento da missão, o século XX foi marcado por sucessivas reorganizações administrativas. Em 1917, foi criada a primeira Província Marista na Oceania, reunindo Nova Zelândia, Samoa e Fiji, separando-a da então Província da Austrália. Em 1948, com o auge numérico dos irmãos no continente australiano, a Província da Austrália foi subdividida em Sydney e Melbourne. Ao mesmo tempo, a missão expandia-se para a Melanésia — Papua-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Bougainville, Vanuatu, Nova Caledônia —, regiões que, embora desafiadoras, tornaram-se também férteis para a educação marista, mesmo com episódios trágicos, como o martírio de três irmãos por tropas japonesas na Segunda Guerra Mundial.
No final do século XX e início do XXI, o Instituto iniciou uma reestruturação diante da diminuição de vocações e do envelhecimento de muitos irmãos no Ocidente. Em 2012, as províncias de Sydney e Melbourne foram reunificadas, e, em 2013, foi criado o Distrito do Pacífico, integrando comunidades em Aotearoa (Nova Zelândia), Fiji, Samoa, Kiribati e Tonga. Em 2020, foi a vez do Distrito da Melanésia se unir à Província da Austrália, consolidando a tendência de fusões para fortalecer a missão.
O marco culminante dessa reorganização ocorreu em 8 de dezembro de 2022, festa da Imaculada Conceição, com a criação da Província Star of the Sea. Em celebração solene no St. Joseph’s College, em Sydney, o superior-geral, Ir. Ernesto Sánchez, oficializou a unificação das estruturas administrativas da Oceania. Com sede em Sydney, Auckland e Port Moresby, a nova província passou a abranger 11 países — Austrália, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné, Timor-Leste, Fiji, Samoa, Kiribati, Ilhas Salomão, Vanuatu, Nova Caledônia e Camboja — tornando-se a maior em extensão territorial do Instituto Marista.
O nome “Star of the Sea” (Estrela do Mar) evoca Maria, guia dos navegantes, padroeira da congregação, e representa a travessia que os maristas continuam a realizar nas águas da missão. Segundo o Ir. Ernesto Sánchez, a nova configuração é um projeto-piloto para a Congregação, visando “garantir a viabilidade e vitalidade da vida marista na Oceania” por meio da união de forças e da resposta contextualizada às realidades sociais, culturais e pastorais da região.
Hoje, a presença marista na Oceania é diversa e vibrante. A Província Star of the Sea reúne mais de 250 irmãos distribuídos em dezenas de comunidades locais, com idades que vão de jovens na casa dos 20 anos a irmãos centenários. Na Nova Zelândia, por exemplo, há 11 comunidades maristas, com 53 irmãos ativos, atuando em 4 escolas próprias em Auckland e em outras 16 instituições inspiradas no carisma de Champagnat. A inserção das escolas no sistema educacional estatal, entre 1979 e 1984, não diluiu a identidade marista, que continua sendo referência pedagógica.
Nos últimos anos, a participação leiga ganhou força. A Associação Champagnat Marista, criada em 2015, já conta com mais de 800 membros só na Austrália, e modelos semelhantes têm surgido nas demais nações oceânicas. Professores, ex-alunos, voluntários e colaboradores compõem, com os irmãos, uma família carismática comprometida com a missão educativa e evangelizadora.
A vitalidade da missão também se expressa na criação de iniciativas como centros de aprendizagem alternativa, voltados a adolescentes em risco de exclusão, como o fundado em 1999. A formação de lideranças locais, os projetos de sustentabilidade ambiental e as ações solidárias são sinais de que o legado de Champagnat segue vivo e atual.