Por Ir. Paulo Henrique Soares
O Jubileu da Esperança se encerrou com o fechamento da Porta Santa. Estive em Roma depois das celebrações e a porta já não estava aberta. O gesto simbólico havia passado e daí me surgiu a pergunta: quando as portas se fecham, o que acontece com a esperança? Ela resiste ou desaparece junto com o rito litúrgico? Mais ainda, que tipo de esperança sustentamos quando já não há portas abertas para atravessar?
A questão é urgente porque vivemos tempos em que a esperança tem sido confundida com otimismo. O otimismo é confortável, autossuficiente, quase automático. A esperança, ao contrário, nasce da falta, do conflito, da incompletude. Esperar não é apostar na probabilidade, pois “é possível ter esperança sem sentir que as coisas em geral provavelmente darão certo” (Eagleton, 2023, p. 15).
No contexto atual, o culto à positividade produz sujeitos alienados, isolados, autocentrados e indiferentes ao sofrimento alheio. A esperança, porém, não vira as costas para a negatividade da vida. Ela a encara. E exatamente por isso não isola, mas reconcilia. Seu sujeito não é o indivíduo performático, mas o nós (Han, 2024). Aqui se revela um critério decisivo para a missão marista: onde a esperança se reduz a discurso individualista ou motivacional, ela já deixou de ser evangélica. Isso significa que a esperança nos convoca à alteridade e à coletividade.
Outro equívoco bastante comum é o de tratar a esperança como se fosse apenas um sentimento. Sentimentos passam, surgem e desaparecem conforme as circunstâncias. A esperança, porém, não se deixa reduzir a essa lógica. Ela permanece, mesmo quando parece adormecida (Eagleton, 2023), mesmo quando as portas se fecham e o futuro se obscurece. Mais do que um estado emocional, a esperança é uma disposição que se constrói ao longo do tempo, um hábito que se aprende, uma forma concreta de existir. Não nasce espontaneamente, nem se sustenta apenas por impulsos momentâneos, mas educa-se à esperança. Aprende-se a esperar do mesmo modo que se aprende a andar ou a falar, por meio de exercícios, quedas e recomeços.
Por vezes, vemo-nos em um limiar frágil entre esperança e desesperança, essa última pode se expressar no risco da apatia, da indiferença e da submissão, sinais de uma vida sem sentido e sem horizonte, de quem se acostuma a se deparar apenas com portas fechadas. Em contraposição, a esperança cristã não se reduz a uma expectativa resignada da vida, mas se funda na promessa de que “somos salvos pela esperança” (Rm 8,24), não por uma espera passiva ou inerte, mas por um núcleo ativado pela fé. É uma esperança que atua na história, que mobiliza o contexto em que se encontra e procura fazer com que o Reino de Deus já aconteça em seu meio (Kuzma, 2014).
A esperança, portanto, é “paixão pelo possível” (Eagleton, 2023, p. 71), força que anima a ação e abre novos caminhos. Sem esperança, a ação se reduz a mero fazer; com ela, a ação torna-se paixão, risco, novo começo (Han, 2024). Assim, quando a Porta Santa se fecha, a esperança não se encerra. Ela desloca-se, tornando-se tarefa cotidiana, empurrando-nos para fora, para educar, cuidar e transformar. É aí que a esperança marista se prova autêntica.
Bibliografia
BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. Nova edição rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2002.
EAGLETON, Terry. Esperança sem otimismo. São Paulo: Editora Unesp, 2023.
HAN, Byung-Chul. O espírito da esperança: contra a sociedade do medo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2024.
KUZMA, Cesar. O futuro de Deus na missão da esperança: uma aproximação escatológica. São Paulo: Paulinas, 2014.