Há 103 anos partia Dom Silvério Gomes Pimenta, o arcebispo que abriu caminhos para os Maristas no Brasil

Há anos partia Dom Silvério Gomes Pimenta o arcebispo que abriu caminhos para os Maristas no Brasil

O silêncio das ladeiras de Mariana guardava, há 103 anos, uma despedida que atravessaria gerações. Em 30 de agosto de 1922, morria Dom Silvério Gomes Pimenta, primeiro arcebispo da cidade, figura de erudição e fé, professor de gerações de sacerdotes e pastor que marcou de forma singular a história da Igreja no Brasil.

 

Nascido em Congonhas do Campo em 1840, Silvério conheceu cedo a dureza da vida. Órfão de pai aos quatro anos, sustentou a mãe e os irmãos até ingressar no Seminário de Mariana. Ali brilhou como aluno e, pouco depois, como professor de latim, filosofia e história. Em 1862, foi ordenado sacerdote por Dom Viçoso, bispo a quem dedicaria sua célebre biografia: Vida de Dom Viçoso.

 

Sua inteligência e capacidade pastoral logo o destacaram: tornou-se bispo auxiliar em 1890 — o primeiro sagrado após a proclamação da República — e, em 1897, assumiu como bispo de Mariana. Anos depois, em 1906, seria elevado a arcebispo, quando a diocese passou a arquidiocese. Literato refinado, dominava o latim, o grego, o hebraico e várias línguas modernas. Suas cartas pastorais, poesias e artigos de imprensa o conduziram à Academia Brasileira de Letras, em 1919, tornando-se o primeiro prelado brasileiro a ocupar uma cadeira naquela casa.

 

O encontro com os Maristas

 

Seria durante uma viagem a Roma, em 1896, que Dom Silvério daria um passo decisivo para a história da educação católica no Brasil. Naquela ocasião, passou pela Casa Geral dos Irmãos Maristas e, com insistência, pediu religiosos para sua diocese. Não apenas pediu, mas obteve o apoio do cardeal Rampolla, secretário de Estado do papa Leão XIII, o que garantiu a acolhida do projeto.

 

O resultado veio logo. Em setembro de 1897, seis Irmãos maristas embarcaram rumo ao Brasil. O destino escolhido para o início da missão foi simbólico: Congonhas do Campo, terra natal de Dom Silvério. Ali, entre a devoção ao Bom Jesus e a memória da infância do bispo, nascia a obra marista no país.

 

Os cronistas da época registraram a emoção da população: “Os habitantes estavam radiantes, vendo seus filhos educados sob os olhos do insigne Dom Silvério, que os visitava frequentemente, interrogava-os e felicitava-os pelo trabalho” (Vinte Anos de Brasil).

 

Não era apenas a autoridade do bispo que se impunha, mas sua proximidade. Os Irmãos conservaram lembranças de episódios singulares, como as visitas-surpresa que Dom Silvério lhes fazia, chegando de forma inesperada à comunidade, partilhando momentos simples e deixando entrever um coração paternal. Para eles, Dom Silvério era mais que pastor: “um verdadeiro pai espiritual e guardião da missão”.

 

Um pastor que uniu fé e cultura

 

Ao mesmo tempo em que se fazia próximo dos Irmãos e do povo, Dom Silvério se projetava como intelectual e líder eclesial. Foi jornalista, fundando periódicos em Mariana, orador sacro de fama nacional e, sobretudo, pastor zeloso, escrevendo cartas pastorais que se estendem de 1890 até pouco antes de sua morte.

 

Sua atuação revela a força de uma geração de bispos que buscava conciliar tradição e modernidade, fé e cultura. Mariana, sob sua liderança, tornou-se não apenas centro eclesiástico, mas também foco de vida cultural e educacional.

 

Legado

 

Lembrar os 103 anos de sua morte é mais que rememorar datas, é redescobrir um homem que foi educador, amigo dos maristas, pastor da Igreja e presença viva na cultura nacional. Seu gesto de abrir as portas da diocese aos Irmãos de Maria gerou frutos incontáveis: escolas, obras sociais e comunidades que até hoje mantêm viva a chama de Champagnat em solo brasileiro.

 

A memória de Dom Silvério não se resume às pedras frias dos arquivos ou à solenidade dos títulos que recebeu. Ela se encontra no carinho dos Irmãos que o viram como pai, na gratidão dos fiéis que se sentiram amparados por ele e na herança de uma Igreja que, graças à sua visão, soube unir evangelização, educação e cultura.

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