Centenário de nascimento | Ir. Miguel Ascânio (Paulo Urbano Portugal)

Ir Paulo portugal

Em sintonia com a Efemérides de 2026, este blog continua a destacar um breve resumo da história dos Irmãos já falecidos e que completariam 100 anos de nascimento. Dos sete Irmãos que atingiriam essa marca, hoje contaremos a história de mais um. Para fazer memória e se fazer conhecer por muitos que não conviveram com eles, esta editoria se esforça para contribuir com a história da PMBCN, especialmente daqueles que contribuíram com a vida para a missão e o carisma institucionais. A pedido deste informativo, alguns Irmãos foram convidados a escrever esta seção, a partir das lembranças e percepções do respectivo Irmão que está sendo homenageado. Para a segunda edição desta nova editoria, convidamos o Ir. Ataide José de Lima, membro da Comunidade da Casa Geral (Roma), para falar sobre o Ir. Miguel Ascâneo (Paulo Urbano Portugal).

Ir. Miguel Ascânio (Paulo Urbano Portugal)

Nascimento: 20/11/1926

Falecimento: 21/02/2000

Naturalidade: Campos Gerais (MG)

Outras informações: ingressou no juvenato em 1939 e no noviciado em 1943, ambos em Mendes (RJ). Realizou o escolasticado de Curitiba (PR), ingressando em 1944, mesmo ano em que professou os primeiros votos. Realizou os votos perpétuos em 1949. Era licenciado em Química pela Universidade do Paraná (atual Universidade Federal do Paraná). Exerceu o apostolado em São Paulo (SP), Curitiba (PR), Ribeirão Preto (SP), Poços de Caldas (MG), Uberaba (MG), São Vicente (MG), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Campinas (SP), Goiânia (GO), Mendes (RJ), Colatina (ES), Taguatinga (DF), Montes Claros (MG) e Cachoeira Dourada (GO).

 

Um testemunho de consagração alegre e entusiasta

Autor: Ir. Ataide José de Lima (Comunidade Marista da Casa Geral – Roma)

Conheci o Ir. Paulo Urbano Portugal em novembro de 1978. Naquele momento, eu cursava a 8ª série do primeiro grau e participava do grupo de jovens, JUMAR, na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, em Campos Gerais (MG).

Em uma tarde do mês de novembro de 1978, a senhora Aciony de Carvalho Branquinho foi à minha casa, acompanhada do Ir. Paulo. Ela, uma das lideranças da paróquia e mãe de um ex-formando marista, o apresentou a mim e à minha mãe dizendo que ele estava procurando rapazes que estivessem interessados em fazer um discernimento vocacional.

Assim que fomos apresentados, ele começou a falar, sem nenhuma formalidade, com empolgação sobre a vida dos Irmãos Maristas, sobre o que faziam, como viviam e em que trabalhavam, como se já os conhecêssemos, como se soubéssemos da existência desse instituto religioso. Na verdade, eu não tinha a menor ideia de quem eram aqueles religiosos.

Lembro-me de que ele me perguntou sobre o que eu gostaria de fazer da vida após finalizar o segundo grau. Eu respondi sobre as minhas intenções de prestar vestibular, ingressar na universidade e seguir carreira, provavelmente, no magistério. Ele retrucou dizendo que isso era muito pouco e fácil demais para um cristão que poderia desafiar-se colocando a vida a serviço do Reino de Deus, e reiterou a conversa convidando-me para participar de um encontro vocacional chamado de Juvenato de Férias, em Mendes (RJ), no mês de janeiro de 1979, durante 15 dias. Disse também que, durante o encontro, haveria momentos de reflexão, oração, prática de esportes, boa comida e outras atividades lúdicas. Tudo muito sedutor e bem apresentado. Ao finalizar o convite, ele disse em tom animador: “Você participa do encontro e, se não quiser continuar com os maristas, pelo menos terá tido a oportunidade de conhecer novas pessoas, fazer novas amizades e aprender algo que seja útil para o seu futuro… o mais importante não é ficar por lá, mas ter a oportunidade de refletir sobre o que você poderá fazer de útil com a sua vida”.

Era difícil apresentar desculpas diante das suas palavras cheias de alegria e entusiasmo. A sua espontaneidade encorajava qualquer jovem a aceitar o seu convite. A sua proximidade encantava, transmitia confiança e, ao mesmo tempo, desafiava. Isto, sim, ele sabia fazer muito bem: desafiar os jovens para que tivessem boas ambições, bons propósitos. O seu modo engraçado de falar, os trocadilhos e comparações que fazia, a habilidade no uso das palavras, além do seu olhar miúdo e sorriso fácil deixavam as pessoas muito à vontade para interagirem com a sua pessoa. Para ele, não havia tempo ou oportunidade que não pudesse ser aproveitada, de um modo ou de outro, para construir um mundo melhor.

Para aquele primeiro encontro, em janeiro de 1979, eu e mais uns 10 jovens do sul de Minas fomos conduzidos pelo Ir. Paulo, de Kombi, até Mendes. Foi uma viagem longa, uma jornada inteira de causos, anedotas e piadas contadas para nos divertir e nos distrair. Ao volante, ele conversava sem fazer intervalos. Apontava para os pontos interessantes da estrada e, de vez em quando, dava uma rápida cochilada ao volante. Isso mesmo, ele era sonolento e muito distraído. Isso nos causava certo pânico. Por graça de Deus, das inúmeras vezes que com ele viajei, nunca aconteceu nada de grave. Lembro-me de que, certa vez, ele entregou o volante para um dos vocacionados, de mais idade, e tratou de tirar uma soneca.

O Ir. Paulo Portugal sempre viajava com um dicionário e pequenas cadernetas de notas pessoais. Não perdia a oportunidade de ler, consultar, fazer pequenas anotações com sua letra minúscula e quase indecifrável. Ele gostava de repetir o seguinte refrão: “Ninguém veio ao mundo só para comer feijão, todo mundo pode aprender um pouco de alemão…”. Isso para dizer que todos tinham oportunidade e espaço para aprender algo útil. Estudava sempre que tinha oportunidade, não perdia tempo. Fosse alemão ou qualquer outro assunto, ele sempre tinha opinião para dar e algo para dizer. Tinha uma memória incrível. O seu gosto pelos estudos, por aprender coisas novas era insaciável. Era conectado com o mundo, com as descobertas da ciência e com as necessidades da juventude.

Ele era muito inteligente, sábio, autodidata, culto e otimista. Não perdia a oportunidade de fazer piada com qualquer situação que lhe apresentasse motivo. Como todos os Irmãos da sua geração, o Ir. Paulo Portugal foi formado e educado para ser professor. Recordo-me de que, para ilustrar uma explicação sobre o voto de obediência, ele me disse ter feito a faculdade de Química por decisão dos superiores, mas o seu desejo mesmo era ser professor de Português, e, como religioso, obedeceu ao provincial e era muito feliz.

Escutei alguns Irmãos mais antigos dizerem que ele nunca teve domínio de sala de aula, que não conseguia controlar os alunos, embora fosse um professor inteligente, qualificado, competente e com excelente domínio do conteúdo.

Essa dificuldade para disciplinar os alunos, manter o silêncio dentro da sala, colocar ordem na turma, no seu tempo, não era bem vista pelos superiores e diretores dos colégios. Em Mendes, para essa dificuldade, usava-se a expressão: “quebrar a pipa”. O Ir. Paulo foi um desses Irmãos que “quebrou a pipa”, mas nem por isso viveu amargurado ou coisa que mostrasse infelicidade com a sua vocação e missão. Era um homem tranquilo, de mente aberta. Não era o observador mais atento das normas e dos regulamentos. Mas, com certeza, era um religioso de primeira linha, fiel à própria vocação. Para ele, aplicava-se muito bem a sentença: a lei deve libertar e não obrigar.

Acredito que a personalidade alegre, falante e despojada de qualquer gesto de autoridade dava liberdade às pessoas para que o abordassem de modo informal. Assim eu me sentia na sua presença. Ele era um homem feliz e por isso atraia e contagiava aqueles dos quais se aproximava. Esse foi o seu melhor testemunho consagrado marista.

Como eu, muitos jovens tiveram a oportunidade de participar dos encontros vocacionais em Mendes, convidados e seduzidos pela alegria do Ir. Paulo. Nem todos permaneceram na vida consagrada, mas todos reconhecem, até os dias de hoje, o quanto foi importante para o seu futuro familiar e profissional estar nesses espaços de reflexão e convivência, na presença de tantos Irmãos Maristas, entre os quais o querido Ir. Paulo Urbano Portugal. Por isso, agradecemos o seu empenho no trabalho de animação vocacional.

 

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