Faleceu em 5 de outubro de 2025, em Recife (PE), o Ir. Arménio Marques Martins, nascido em 14 de abril de 1926, marista com 80 anos de vida religiosa, professor de língua portuguesa e francesa, e antigo responsável pela Casa de Apipucos. Partiu após longa trajetória dedicada à formação de Irmãos e estudantes, marcada por fé, cultura e serviço. De Barcelos, em Portugal, à colina de Nossa Senhora da Conceição, construiu uma história de fidelidade e missão.
A vocação teve início em 1935, em Valença, em um episódio simples que o próprio Ir. Arménio registrou com afeto na publicação de 2017, “Simplesmente Irmãos”. “Lembro-me bem, quando a tia Prazeres me apresentou, e o Ir. Norberto pousou a mão na minha cabeça e me perguntou: ‘Também queres ir?’ À minha afirmativa ele respondeu: ‘Ainda és muito pequenino…’ Eu tinha, então, apenas 8 anos e 8 meses.” Pouco depois, sucessivas levas de meninos atravessaram a ponte sobre o rio Minho rumo ao Juvenato de Tuy. Aos 11 anos, foi a vez do jovem Arménio, movido por curiosidade e fé. “Nunca se ouvira falar desses tais Maristas… ‘Desígnios de Deus’!”, escreveu.
Em outubro de 1939, foi indicado para integrar o grupo enviado ao Brasil. A travessia, adiada pela eclosão da Segunda Guerra Mundial, tornou-se símbolo de coragem e esperança. “Após as Ilhas Canárias, fomos surpreendidos por um submarino… por três dias ficamos sob a mira dos torpedos… muito desespero, muita prece… E, após negociações, fomos liberados. Que alívio!”. O navio Almirante Alexandrino aportou no Recife em 23 de janeiro de 1940, e os recém-chegados foram acolhidos em Apipucos com festa e alegria. O estranhamento inicial deu lugar à pertença. Vieram o noviciado, em 1944; os votos perpétuos, em 1950; e os votos de estabilidade, em 1964.
A sua missão apostólica percorreu o Norte e o Nordeste. Após o escolasticado, o Ir. Arménio atuou por três anos no Juvenato de Missão Velha (CE), antes de seguir para Fortaleza, onde concluiu o curso de Letras Clássicas e obteve diploma de Francês. No Colégio Marista Cearense, lecionou por quase duas décadas, formando gerações com rigor, clareza e leveza. Em 1970, foi enviado a Lisboa, onde trabalhou no Externato Marista. A experiência ampliou horizontes, sem lhe tirar o sotaque de Apipucos. De volta ao Brasil, em 1981, reassumiu atividades em Fortaleza e, em 1985, foi designado para a Casa de Apipucos, onde acompanhou e dirigiu a comunidade. Seguiu, ainda, em Apipucos, até o fim de sua vida.
Domínio da língua, amor à leitura, gratidão às origens, estima pela comunidade e zelo pela casa comum definiram a vida do Ir. Arménio. Evitava rigidez inútil, cuidava dos detalhes e cultivava o equilíbrio entre firmeza e gentileza. O professor que atravessou o Atlântico em navio lotado soube, por décadas, cruzar oceanos humanos com serenidade e palavra precisa.
A guerra, a saudade, a doença dos confrades, as despedidas de Irmãos: nada o afastou da confiança em Deus. Os anos finais, vividos na colina, consolidaram a figura de referência: guardião de memórias, ponte entre gerações e testemunha de um carisma transmitido no cotidiano simples.
Conforme o relato vocacional do próprio Irmão, em 1955, ao rever o pai após 15 anos de ausência, ouviu a pergunta aflita: “Quem de vocês cinco é o meu filho?” A lembrança atravessou décadas como sinal de uma vida que, ao se doar, já não pertencia a si, mas à missão que abraçara. Hoje, a colina de Apipucos reconhece esse mesmo filho em cada rosto formado por sua presença. Gratidão pela vida oferecida. Em louvor a Maria e sob o olhar de Champagnat, deo gratias.