Em 27 de fevereiro, o Instituto Marista celebra 115 anos de atuação contínua no Chile, um percurso iniciado em 1911 com a chegada de quatro jovens Irmãos a Los Andes. O que começou em um antigo convento adaptado para uma escola se transformaria, ao longo do século, em uma ampla rede educacional e pastoral que hoje atende mais de 17 mil estudantes em diferentes regiões do país.
A chegada dos Irmãos maristas ao Chile não foi um acontecimento repentino. Já ao final do século 19, a Igreja chilena buscava congregações capazes de fortalecer a educação católica, especialmente em cidades distantes da capital, onde faltavam escolas e docentes. Diversos pedidos feitos à congregação entre 1898 e 1909 não prosperaram, em parte devido às dificuldades internas vividas pelo Instituto e provocadas pela perseguição religiosa na França.
A virada ocorreu em 1910, quando Mons. Rücker, vigário-geral do Arcebispado de Santiago, visitou casas maristas na Europa e firmou, com o superior-geral, Ir. Stratonique, o acordo que finalmente abriu caminho para uma fundação estável no Chile. Em 2 de fevereiro de 1911, um contrato formal selou a chegada dos primeiros Irmãos, garantindo liberdade pedagógica e apoio econômico básico.
A travessia da cordilheira e o nascimento do Liceo Chacabuco
Os Irmãos Adventinus (Ferdinand Nicolas Renel Maillard), suíço, e os três espanhóis Adulfo (Juan Abaurrea Ozcoidi), Jacinto (Rufino Mezquíriz Iraizoz) e José Andrónico (Donato Ramos Zabalza) partiram de Barcelona rumo à América do Sul. Após breve estadia em Buenos Aires, atravessaram a Cordilheira dos Andes pelo recém-inaugurado Trem Trasandino, chegando a Santa Rosa de Los Andes em 27 de fevereiro de 1911.
Ali, com apoio dos Padres Assuncionistas (Agostinianos da Assunção), instalaram o Liceo Chacabuco, hoje Colégio Marista Los Andes. No primeiro ano, o colégio já somava 134 alunos e se tornaria rapidamente referência educacional e religiosa na região andina.
Os primeiros anos não foram isentos de desafios: inspeções do sistema educacional chileno apontaram divergências curriculares em virtude do uso de programas espanhóis. A adequação ao modelo nacional se transformou em aprendizado e consolidou o diálogo entre a congregação e o Estado.
O impulso inicial em Los Andes serviu de plataforma para novas fundações ao longo das décadas seguintes. Entre 1912 e 1929, os Irmãos abriram colégios em Curicó, Quillota, Rancagua, Constitución e, finalmente, em 1929, em Santiago, com o Instituto Alonso de Ercilla, marco da presença definitiva da congregação na capital.
Algumas casas nasceram de iniciativas paroquiais; outras, como o Instituto Rafael Ariztía, foram apoiadas por benfeitores. Em todas, o foco era o mesmo: oferecer educação integral e valores cristãos a crianças e jovens de diferentes realidades sociais.
De Distrito a Província Santa María de los Andes
O crescimento das obras levou à criação de novas estruturas organizacionais. Inicialmente vinculada à Província da Espanha, posteriormente a missão foi organizada como distrito, junto com as obras e Irmãos do Peru. Em 1946, ambos os países se tornaram províncias. Em 2002, a reconfiguração do Instituto deu origem à Província Santa María de Los Andes, integrando Chile, Peru e Bolívia em uma mesma unidade administrativa.
Hoje, o Chile abriga 12 colégios maristas e 14 fundações relacionadas à missão — a maioria vinculada às próprias escolas. O trabalho educativo é sustentado por 1.694 colaboradores. Já a vida religiosa conta com 31 Irmãos residentes no país, distribuídos em cinco comunidades, algumas mistas com leigos.
Mais do que recordar a travessia dos primeiros Irmãos pela Cordilheira dos Andes, a celebração dos 115 anos convida a congregação a cruzar novos territórios
A celebração dos 115 anos nos recorda a travessia dos primeiros Irmãos pela Cordilheira, mas convida, também, a congregação a cruzar novos territórios: sociais, culturais e digitais. O desafio permanece sendo o de manter viva a missão marista de tornar Jesus conhecido e amado, oferecendo às novas gerações um espaço de formação humana e cristã.