Por Ir. Edvaldo Ferreira de Lima
A história da evolução humana sempre foi marcada pelos movimentos de migração. Desde as civilizações antigas, homens e mulheres marcharam em busca de melhores condições de vida e sobrevivência, motivados por condições climáticas, alimentação ou proteção. A própria história do povo de Deus com Abraão, que sai de Ur, na Caldeia, para Canãa, é a de um povo que marcha em busca da terra prometida.
Assim foram, também, a história das grandes navegações em busca de novos lugares e a invasão das terras ameríndias. Ainda hoje, pessoas seguem migrando de um lado para o outro, buscando melhores condições de vida. O que se difere do passado é que muitos dos migrantes estão sendo obrigados a sair de suas terras por conta de guerras, violência e fome. Não mais pela inexistência de alimentos, mas pela distribuição desigual e pelo acúmulo, que fazem com que uns poucos se apropriem da riqueza, enquanto, para outros, reste a miséria.
Na Colômbia, o tema da migração sempre foi algo constante com os países vizinhos. Muitos colombianos foram para Venezuela nos tempos áureos do petróleo e por lá fizeram vida. A cidade de Maicao, que está na fronteira com a Venezuela, já foi um grande polo comercial entre esses dois países. Nos últimos anos, porém, com a crise na Venezuela, muitos colombianos retornaram e, a partir daí, começou uma grande onda migratória.
O fenômeno se intensificou com a pandemia da Covid-19. Segundo relatos, o que se via era uma grande multidão de gente caminhando a pé pelas estradas, tentando fugir da Venezuela. Segundo dados da Fundação Paz e Reconciliação, o departamento de La Guajira possui a quinta maior população venezuelana do país, com 150.806 habitantes, dos quais se estima que 56,4% estejam em situação migratória irregular. Isso significa que La Guajira concentra cerca de 9% dos 1.742.927 venezuelanos residentes no país. Em âmbito departamental, o município de Maicao, em La Guajira, recebe o maior número de migrantes, refugiados e retornados, em razão da localização geográfica, já que inclui o distrito de Paraguachón, situado na fronteira com a Venezuela.
Em Maicao, encontra-se o maior assentamento humano da América Latina, La Pista, com uma população de 14 mil pessoas aproximadamente. O assentamento está localizado em uma faixa de terra de 1,6 quilômetros de comprimento e 300 metros de largura, que correspondia à pista do antigo aeroporto no município de Maicao. O assentamento começou a se formar em 2015, devido ao grande influxo de migrantes venezuelanos (residentes que retornavam) e de refugiados, e à própria comunidade Wayuu (população indígena local).
Inicialmente, eles viviam em abrigos improvisados ao redor da torre de controle. Mais tarde, foram remanejados para o local dos hangares do aeroporto. Atualmente, existem em torno de 4.280 casas construídas de modo precário na pista, divididas em 12 quarteirões, habitadas por cerca de 3.800 famílias. Além deste, existem cerca de 50 outros assentamentos espalhados pela cidade.
As famílias que vivem nos assentamentos encontram-se em situações precárias, carecendo de serviços básicos de saúde, moradia, alimentação e água potável. Muitas crianças não conseguem ser matriculadas nas escolas locais por falta de documentação. Recentemente, a situação se agravou em decorrência do cancelamento da ajuda financeira dos Estados Unidos para agências como a USAIDS (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional).
Diante dos apelos do Papa Francisco para uma Igreja em saída e um olhar mais atento para as realidades emergentes, as congregações dos Irmãos Maristas e Lassalistas, ambas com missão alicerçada na educação e evangelização, resolveram somar esforços para atuar em projetos de fronteira com refugiados. Surgiu assim, em 2015, o primeiro Projeto Fratelli, no Líbano, voltado a refugiados dos diversos conflitos do Oriente Médio. Na Colômbia, o Projeto começou em 2022 para atender migrantes oriundos da Venezuela. A proposta do Projeto Fratelli é ser um espaço de acolhida para crianças e adolescentes migrantes, que lhes proporcione, por meio da educação, a reconstrução de sua identidade e autoestima, e a valorização da própria cultura. Para isso, são desenvolvidos programas de educação, cultura, esporte e lazer, que os ajudam a fortalecer suas habilidades e protagonismo, devolvendo-lhes a capacidade de sonhar com um futuro melhor.
A comunidade Fratelli, formada por dois Irmãos maristas e dois Irmãos de La Salle, também é espaço de acolhida para jovens que querem viver uma experiência e fazer a diferença no mundo. A própria dinâmica intercongregacional e intercultural já se torna sinal de evangelização, aprendizado e respeito às diferenças.
Diariamente, deparamo-nos com realidades muito duras, de pobreza e negação de direitos, e, muitas vezes, o que podemos oferecer é somente estar junto das pessoas e ser presença que acolhe, consola e, em alguns momentos, chora junto. Nessas realidades, entendemos o sentido da palavra “fratelli”. Todos os dias somos chamados a ser irmãos dos que mais sofrem e ser o Cristo migrante, que ainda continua sem um lugar para nascer.