A Santidade de Champagnat

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Em 6 de junho de 1840 falecia, em Notre-Dame de L’Hermitage, Marcellin Joseph Benoît Champagnat. Até então, um simples sacerdote católico do interior da França. Rodeado de Irmãos, morreu a hora da Salve Rainha, nas vésperas de Pentecostes. A Regra Comum de 1852 prescrevia “às 4h50, a Salve Rainha, a oração da manhã, seguida da meditação”. Era a alvorada de um sábado quando o piedoso padre abraçou a vida eterna.

 

Ir. Francisco, que conduziu a liderança do novíssimo Instituto após a morte do Fundador, escreveu: “antes de morrer, o bom padre garantiu-nos que não nos esqueceria e que empregaria em favor da Sociedade todo o crédito que pudesse ter no céu”. A afirmação do primeiro superior-geral anteveria um futuro próximo que culminou no reconhecimento do Instituto Marista pela Santa Sé e na notoriedade de santidade do padre Marcelino Champagnat.

 

O anonimato de Marcelino perduraria por algumas décadas. Sua memória ainda seria lembrada e chorada por aqueles que viveram com ele e pelos Irmãos que ingressaram no Instituto ano após ano. Da modesta fundação, na longínqua La Valla, até três décadas após a morte, a realidade era outra. Em 1874, também escreveu Ir. Francisco: “Vede! Quando ele morreu éramos aproximadamente 200 e tínhamos 43 casas; hoje temos 445 e somos perto de 3 mil. Faz 34 anos que nosso querido e venerado fundador morreu”.

 

Das 43 obras existentes em 1840, quase todas restritas à região do Loire (exceção eram os missionários enviados à Polinésia), 34 anos depois, os Irmãos maristas já se espalhavam por toda a França e haviam chegado à Nova Zelândia e Austrália. O Fundador e sua obra não mais se limitavam ao Loire ou à memória daqueles que os conheceram. Seu nome era levado para todos os lugares em que as escolas maristas frutificavam.

 

A década de 1880 marcou o início da grande expansão. Em 1885, os Irmãos chegam ao Canadá, marcando o início da missão marista no continente americano. No ano seguinte, aos Estados Unidos e, em 1889, na Colômbia. Em 1886, ocorre a primeira fundação na Espanha, em Girona, terra em que irão florescer centenas de vocações e muitos mártires da Igreja. Em 1891, a China, ainda imperial, foi terra de missão que germinou e gerou, também, muitos frutos e mártires. Em 1897, o Brasil recebeu os primeiros Irmãos.

 

A cada país que a missão marista atingia, um novo sopro de vida era lançado. A história do fundador se espraiava entre tantos novos alunos e novas vocações que surgiam. A tradição oral e escrita dos Irmãos inculcou a notoriedade do padre francês que sonhou e ousou desafiar todas as contrariedades do próprio tempo para fundar uma instituição que evangelizasse e educasse crianças e jovens, especialmente os mais pobres.

 

Em 1896, iniciou-se o processo de canonização de Marcelino Champagnat, que culminou com o reconhecimento das virtudes heroicas do fundador e de dois milagres. Quase 60 anos depois do início da causa, Marcelino foi beatificado pelo Papa Pio XII. Com o reconhecimento de mais um milagre, a santidade foi declarada em 1999, por São João Paulo II. Ao todo, o percurso da causa nos tribunais vaticanos ultrapassou um século e nove papados, de Leão XIII a João Paulo II.

 

Ao fim dos mais de 100 anos de tramitação, o processo de reconhecimento da santidade mudou o lugar de Marcelino na Igreja e no próprio Instituto Marista. O anonimato do simples padre francês do Loire já não cabia mais dentro dos muros da instituição que fundou: Marcelino agora é santo da Igreja, de todo o povo de Deus. O trabalho que legou ao mundo e o carisma que ofertou à Igreja agora são bens universais, católicos, portanto.

 

O ingresso na eternidade, no longínquo 6 de junho de 1840, deixou, há muito tempo, de ser motivo de saudade ou de tristeza pela partida do pai fundador. Passou a ser, desde 1999, alegria para todos os maristas. “Sem dúvida. Deus permitiu como uma recompensa para seu fiel servidor, mas também como uma piedosa recordação para seus filhos, que ele tenha exalado o último suspiro precisamente no mesmo momento em que, diariamente, ele entoava a Salve Regina, antes da meditação”, escreveu Ir. Francisco em uma das Circulares.

 

Na alvorada em que abraçou a morte, terá Champagnat se recordado do que escrevera em 31 de dezembro de 1828? “Virá um dia em que será verdade dizer: este dia é o último dia da minha vida nesta terra, e amanhã será o primeiro de minha eternidade”.

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