Passos para o discernimento vocacional

Ir Márcio Henrique Ferreira da Costa

Por Ir. Márcio Costa, FMS

Considerando o contexto do itinerário vocacional, motivado desde os congressos vocacionais do Brasil[1], entende-se que o discernimento inclui este processo e se torna um marco na vida do jovem. É um tempo de novas descobertas e de aprofundamento sobre si mesmo, focando o autoconhecimento, a autocompreensão, a autoaceitação e a superação pessoal. Nesse sentido, a animação vocacional pode ser um espaço para favorecer ao jovem esse caminho de discernimento.

Inspirado pela Jornada Mundial da Juventude ocorrida em 2023, o Papa Francisco nos ajudou a entender o quanto é importante o desenvolvimento de um bom discernimento em vista de nossas escolhas vocacionais. Afirma o santo padre que “o mais importante, porém, é que cada jovem ouse semear o primeiro anúncio na terra fértil que é o coração doutro jovem[2].

A realização de um discernimento vocacional deve levar em consideração o tempo em que vivemos, o contexto social, eclesial e cultural, os desafios e as circunstâncias que impactam diretamente nossas vidas. Nesse processo, instalam-se como necessários o diálogo aberto, a confiança em alguém que possa nos acompanhar, a presença de qualidade e a escuta atenta e cuidadosa.

O discernimento vocacional é um canal de relação com as juventudes. É necessário estar suficientemente sensível para poder perceber os sinais desafiadores. Todavia, é preciso também perceber os novos fenômenos que o tempo atual nos interpela nas realidades das juventudes. Discernimento vocacional deve ser, necessariamente, um compromisso de vida, que nos ajuda na vivência de itinerários e processos que conduzam os jovens no caminho do amadurecimento, favorecendo experiências de escuta, conduzindo o jovem na partilha e no desenvolvimento humano.

O ser humano e o conhecimento por meio das mídias sociais

Hoje o ser humano tem acesso ao conhecimento de onde ele estiver e aprende/ensina utilizando os mais diversos recursos tecnológicos. O lugar em que esse conhecimento acontece é o “espaço virtual de aprendizagem”, no qual são inseridos os conteúdos, as salas de bate-papo e fóruns virtuais. Na era digital, as novas tecnologias interferem no jeito de pensar e agir, e oferecem diversas possibilidades de comunicação que permitem, entre outros benefícios: interação, agilidade, dinamicidade do processo de aprendizagem, uso de diversos tipos de recursos tecnológicos, aproximação, apesar da distância geográfica, e possibilidade de acesso atemporal.

Vivemos, portanto, um tempo privilegiado para lidar com o discernimento vocacional, que, por sua vez, não deve se prender somente ao ato da vocação específica, mas ao sentido de vida e à forma como desejamos viver neste tempo novo. Sobretudo pelo discernimento vocacional, aprendemos, com os jovens e na experiência com eles, a sentir o quanto podemos crescer juntos.

O discernimento vocacional acontece progressiva e simultaneamente em três âmbitos. Antes de tudo, é preciso despertar para a dimensão humana da vocação. Nosso primeiro chamado é para viver, ser pessoa, cultivando aqueles valores que caracterizam o ser humano enquanto tal. O segundo âmbito diz respeito à dimensão cristã da vocação. Trata-se de despertar para a vivência do compromisso batismal, para o exercício fiel da missão que nasce a partir do batismo que recebemos. Com muita facilidade, tendemos a logo transformar pessoas em padres, Irmãos, frades e freiras, sem antes nos perguntarmos se tais pessoas são, de fato, cristãs. É fundamental que o discernimento vocacional apresente Jesus Cristo ao jovem. O terceiro âmbito, enfim, refere-se à dimensão eclesial da vocação. É preciso despertar para a concretização do compromisso batismal. Fazer as pessoas perceberem que não é possível serem cristãs de forma “genérica”, mas somente abraçando compromissos concretos, serviços específicos dentro da comunidade.

O discernimento leva os jovens ao desejo de aprofundar e continuar o processo. Muitos apresentarão de imediato o desejo de seguir Jesus a partir de uma vocação específica. É fundamental, no entanto, que o discernimento trate de verificar se os sinais vocacionais são indicadores de um verdadeiro chamado da Trindade. O processo de discernimento, tendo presente a pedagogia usada por Jesus nos evangelhos, questiona as motivações, sonda as intenções, alerta para a radicalidade e a seriedade da opção.

Como nos anima o Papa Francisco, devemos acreditar e ter esperança nas juventudes. Percebê-las como sinal de esperança e de força em nossa fé é um marco ao estímulo para que busquem o discernimento. O discernimento, por sua vez, deve ser um tempo especial em que muitos jovens desenvolvem a elaboração do seu Projeto Pessoal de Vida, bem como buscam pelo sentido de sua vida. Por isso, urge em nossos corações a esperança que sustenta a animação vocacional, capaz de manter processos, projetos e ações que vitalizam nossas comunidades eclesiais e, consequentemente, fazem a diferença na vida de muitos jovens.

Podemos pensar concretamente em alguns passos que enriquecem o tempo de discernimento e suscitam vitalidade, sustentando ânimo nas juventudes em nossa vida e missão.

A certeza de que todo ser humano recebe uma vocação. Deus chama a todos. Ninguém fica de fora dos planos de Deus. Desde o nosso nascimento, Ele nos ampara, nos modela, nos conduz a uma missão e nos sustenta. Para que cada jovem vivencie o discernimento, é necessário: percepção sobre o chamamento de Deus em sua vida, abertura às orientações, oração e escuta atenta. Os jovens são desafiados a vivenciar um caminho que os levará a muitas descobertas pessoais e amadurecimentos.

    Fazer o Reino de Deus prosperar. Jesus, em sua trajetória de vida, constantemente lutava pelo crescimento do Reino (Mt 6,33). O Reino de Deus é o lugar da esperança, onde encontraremos amor, igualdade, respeito, paz, harmonia, transformação, liberdade e saúde. O discernimento vocacional, por sua vez, deve, por meio de suas ações, estimular as juventudes para esse caminho, independentemente da opção de vida que elas escolhem.

    Contribuir para uma sociedade cada dia mais justa e fraterna. Esse é um passo fundamental que sustenta o jovem em sua opção quando há discernimento vocacional. É uma consequência natural dos passos anteriores, mais especificamente ajudando os jovens a descobrirem e abraçarem suas vocações.

    O discernimento vocacional verdadeiro é aquele que tem por objetivo colocar-se, antes de tudo, a serviço da vida. Antes de ajudar a descobrir sua vocação específica na Igreja, o discernimento vocacional procura favorecer o desenvolvimento da pessoa em sua totalidade, para que ela tenha vida e vida plena, e assim possa ser verdadeiramente humana. Por isso, estimados jovens, para entregar-se ao processo de discernimento e acompanhamento vocacional, é necessário “olhar para si mesmo com os olhos de Deus”, ser capaz de enxergar-se com amor, paciência, cuidado, ternura, delicadeza e, sobretudo, atenção ao seu desenvolvimento e amadurecimento. Essa é a esperança maior que perpassa o processo de discernimento vocacional.

    O caminho do discernimento é fundamental e pedagógico. Necessita ter profunda espiritualidade, capaz de estimular os jovens a construir valores fundamentais em suas vidas. Esse é o diferencial que o discernimento vocacional pode ofertar à sociedade e à Igreja. Portanto, continuemos a sonhar juntos e a empreender o melhor de nós, perseverando na transformação do discernimento em nossas vidas. 


    [1] CONGRESSOS Vocacionais. Comissão Episcopal para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada, [s.d.]. Disponível em: https://cmovic.cnbb.org.br/congressos-vocacionais/. Acesso em: 14 jul. 2024.

    [2] FRANCISCO, Papa. Exortação Apostólica Pós-Sinodal do Papa Francisco: Christus Vivit – para os jovens e para todo o povo de Deus. Trad. Décio José Walker. Brasília: Edições CNBB, 2019.

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